Foi pra casa mais tarde naquela sexta. Acabara de asistir a peça Gota D’Água. Sabia que o título era sugestivo.
Em casa, sabia que teria uma conversa difícil, mas não esperava o pior. Simplesmente não acreditava naquela decisão. Chorou. Muito. Como há tempos não fazia. Chorou em todos os cantos da casa, sempre no chão. Não lavou a cara, deixou tudo ali: desespero, lágrimas, rímel. Sentou no pufe da sala, em frente à varanda. Sentia frio, mas sentia um certo acalando no balançar das árvores ao vento. E ali, em algum momento do seu pranto, dormiu, querendo acreditar que, ao acordar, tudo não passaria de um pesadelo ruim. Mas não era. Acordou e tudo estava lá em seu rosto: desespero, lágrimas e rímel. Em algum lugar havia alguma esperança. Mas ele voltou ao assunto e foi arrancando a pontinha que existia. Em algum momento chegaram até a rir, ainda se abraçaram, trocaram cheiros. Ele disse que estava confuso, que precisava pensar sobre tudo. Disse não sabia se era aquilo mesmo, se era certo, mas que tinha que ir. Ela então pediu que ele fosse logo, pois sabia que só depois que ele partisse é que o coração se quebraria por completo. E só então que ela poderia pensar em juntar os pedaços e colar – apesar de não saber mais exatamente onde ficava cada coisa dentro do vazio de si. Passou a tarde doente, na cama de seu quarto. E à noite, ele decidiu partir.
Do quarto ela só ouvia a movimentação. O arrastar das coisas parecia rasgar qualquer coisa dentro dela. Sabia que ele levaria os instrumentos pois tinha show no dia seguinte. Entrou no quarto, pegou apenas uma roupa e saiu. De repente, ela ouviu a porta da sala batendo. Prendeu a respiração por uns 10 segundos… e desabou sendo engolida pelo próprio escândalo de seu pranto.
Foi até o quarto do escritório. Ele havia levado o computador. Aquilo pra ela parecia significar algo. Não aguentou. Gritava, chorava, falava sozinha, enlouquecia. Com as últimas forças, pegou o relógio de mesa dele e espatifou na parede. Sem forças, sentou ali mesmo e chorou as lágrimas que já nem tinha mais. Ali ficou até secar sua fúria com sua lágrima. Por muito tempo ficou paralisada, mal respirava, mal piscava.
Levantou, juntou todos os pedacinhos do relógio e deixou ali em cima, num lugar visível, pra se lembrar da burrice que havia feito de quebrar aquilo. Parecia que já estava um pouco mais recomposta. O telefone tocou, era seu amigo.
- Como vc tá?
- Tô triste. Ele foi embora. Não sei se é definitivo, mas ele foi. (chorando)
- Vamos sair, fazer alguma coisa?
- Tô sem carro, meu pneu tá furado e eu não consigo trocar sozinha. (chorando mais ainda por se sentir dependente pra trocar um pneu).
- Fica calma, vc não vai ficar sozinha não. Eu e Renan (outro amigo) tamo indo praí.
- Obrigada. Beijo.
Estava perdida naquele apartamento tão grande. Tentou começar a fazer coisas normais pra se distrair. Ligou a tv do quarto, depois a da sala, ligou o computador, fez pipoca de microondas e lembrou que não tinha comido nada. Ficou feliz por não ter sentido fome.
Os amigos chegaram, deram um abraço apertado e macio. Ela quis chorar, mas segurou. Foi melhor. Conversaram um pouco sobre tudo e nada. Riram e trocaram o pneu do carro ela. E fizeram ela sair e ver um pouco o mundo.
Eles a salvaram dela mesma.